domingo, 13 de maio de 2012

De onde vim? Para onde vou? Quem eu sou?


Como o ser o humano buscou resolver seus questionamentos durante os vários períodos da história?
De onde vim? Para onde vou? Quem eu sou?
Essas três indagações ao longo da história humana foram levantadas e houve uma tentativa de elucidação às possíveis respostas. O primeiro período que compreende este início de  explicações é a primeira fase do período cosmológico. Neste período, tudo é elucidado através do sobrenatural, isto é, toda realização no mundo era de ordem exterior, os deuses eram responsáveis por tudo que ocorria, e não poderia existir contestação, havia apenas o decorrer da tradição.

A segunda fase do período cosmológico é tentativa de romper com o paradigma de ordem sobrenatural. Na Grécia Antiga, com os primeiros filósofos, houve a busca de um princípio fundamental para explicar o universo, ainda com a interpreção no cosmo, eles diziam que tudo parte de um princípio único. A citar, Tales de Mileto – elemento água; Pitágoras – Número; Heráclito, também seguindo o paradigma da época, fogo. Fogo é um elemento que indica mudança. Essa abordagem  Heraclitiana  é fundamental para o estudo da psicologia na atualidade.
 
Outra fase de construção subjetiva da humanidade foi denominada Antropocêntrica. Neste período, as indagações mencionadas no início da composição passam a ser de ordem interior: “O homem é a medida de todas as coisas.” Algo que ilustra muito bem a transição para o período antropocêntrico é um trecho retirado do livro a história da escrita. “ Hipócrates foi a primeira pessoa que ao ver um homem tendo um ataque epiléptico afirmou que aquilo não seria uma manifestação dos deuses, era uma manifestação que deveria ser entendida e interpretada no próprio homem”. Temos, nessa passagem, um exemplo de mudança paradigmática e os ideais subjetivos da época antropocêntrica. Ainda no antropocentrismo, três pensadores que merecem destaque são: Sócrates, fundador da ética no ocidente, que contestou as convenções de ordem humana e tentou entender a natureza destas convenções. Platão, pensador que trouxe a ideia de homem dualista: corpo e mente. Onde a mente seria a parte mais privilegiada – única fonte de razão e conhecimento. Aristóteles que, diferentemente de Platão, valorizou os sentidos para se buscar a razão. Na Grécia Antiga, o trabalho manual era desprivilegiado, isso pode ser um viés de explicação para a valorização do pensamento crítico. Só as pessoas que gozavam de tempo possuíam o privilégio de pensar e designar a melhor forma de vida.

Depois da invasão da Grécia, os ideais da cultura grega são difundidos por Alexandre. Mesmo difundido a cultura grega, ele permitiu o desenvolvimento de diversas práticas religiosas  e com a sua morte os ideais gregos entram em declínio e volta à tendência a religiosidade e o maior e o maior desenvolvimento de seitas na época.Com a expansão do império romano, uma das seitas, o cristianismo, se torna a religião oficial do império. Começa aí um período que é denominado de teocêntrico.

O período teocêntrico pode ser entendido com uma releitura da primeira fase do período cosmológico, mas agora existe uma instituição que é a igreja católica. A igreja é respaldada pelos ensinamentos da bíblia – livro sagrado que contém a única fonte de verdade.
Durante séculos o paradigma cristão esteve absoluto. Alguns dos fatores que contribuíram para abalar as “verdades” foram: A peste negra – que dizimou mais de 1/3 da população europeia; a Reforma Protestante – liderada por Lutero propondo uma nova interpretação da bíblia; os conhecimentos de Copérnico que afirmavamm que o sol é o centro do universo e não a terra como era dito. As ideias de Copérnico foram comprovadas por Galileu depois da invenção do telescópio. Outro fato também que pode ter contribuído para o declínio da igreja católica foi o abuso de poder do clérigo. Depois desses abalos na igreja abre-se terreno para uma nova abordagem paradigmática, surge o Renascimento.

O Renascimento é uma fase de grande efervescência cultural. Há o desenvolvimento amplo de áreas como a literatura, as artes, a medicina, a biologia, a astronomia, etc. O homem passa a ser o centro mais vez na história e, agora, valor máximo de tudo. Toda esta explosão de conhecimento abre portas para os ideais iluministas. Os ideais iluministas faziam uma crítica à aristocracia por toda ostentação vivenciada pela elite dominante da época. Neste contexto, há um ambiente fértil para a revolução francesa que pregava os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A revolução francesa é nada menos do que uma revolução burguesa. Ainda neste ambiente, podemos mencionar a mudança do modelo feudal para o modelo capitalista. O modelo capitalista é liderado pelos burgueses. Quando a burguesia toma o poder é inaugurada a modernidade.

A revolução industrial pode ser o ápice para o ideal de homem moderno. Nesta revolução há a necessidade de produção em larga escala. Os homens, mulheres e crianças trabalham como máquinas. Há uma perda da noção do todo, pois anteriormente os artesãos tinham conhecimentos de todo o processo de fabricação do produto, mas para o momento isso seria uma perda de tempo e diminuição nos lucros. A modernidade prometeu progresso e uma melhor qualidade de vida tendo a ciência como única fonte de verdade, mas todo progresso prometido não foi cumprido. Em busca desta melhor qualidade de vida há um incentivo para alcançar o ideal prometido. E nesta idealização, as pessoas não têm tempo de refletir sobre sua situação em vida. Na modernidade ainda havia produções de bens duráveis, mas como desenvolveria a rotatividade de produtos no comércio se os bens fossem duráveis?   É preciso desenvolver a necessidade por consumir ainda mais. Temos, agora, os princípios para o desenvolvimento de outra etapa da construção subjetiva da humanidade – a Pós-modernidade ou Hipermodernidade, a época em que estamos inseridos, cujo lema é o consumir compulsivamente.

Haverá na Hipermodernidade o exagero da modernidade. A cultura é de ordem hedonista. Isto é, o que importa realmente é o presente. Um exemplo clássico da Hipermodernidade é facilitação para comprar atualmente. Exemplificando: se você fizer uma compra usando o cartão Hipercard, o valor da sua compra pode ser dividido em 5, 8 , 12 vezes ou mais. E cada fatura pode ser reparcelada em até 24 vezes. Exemplo: Uma fatura que custou 89 reais passa a valer parcelada 159 reais. Observamos o consumo exacerbado e um lucro enorme para os empresários do setor econômico. Há uma forte propaganda para fazer escolha. Veja o texto que fala dessa “interessante” maneira de parcelamento.
Aproveite mais essa facilidade que o seu Hipercard oferece. Com o Parcelamento da Fatura você pode dividir o valor total de sua fatura em até 24 vezes fixas. Assim, você fica sabendo, desde a contratação, quanto vai pagar por mês e por quanto tempo e os encargos já vêm calculados nas parcelas. Com isso, você ganha tempo, simplifica a sua vida e organiza suas contas.”
Consumir ou não consumir depois de uma grande oportunidade desta?
Todo este contexto capitalista contribui fortemente para o empobrecimento da subjetividade humana. Cada vez mais, embalados pelos recursos tecnológicos, as pessoas tentam substituir o virtual pelo real por ser mais agradável, conquistador e interessante, tal postura contribui para uma maior individualização e do ser humano e problemas de ordem afetiva aumentam. E os questionamentos de onde vim, para onde vou e quem eu sou, são menos repensados, pois só  o presente é o tempo ideal para ser vivido. Não é interessante perder tempo com perguntas que não nos levarão a lugar nenhum. É um eterno viva à cultura hedonista.
Depois deste sucinto relato sobre a construção subjetiva no ser humano na história, fizemos a perguntas que iniciaram esta composição escrita e oferecemos nossas respostas.
 - De onde vim?
- Não sei.
- Para onde vou?  
- É mistério.
 Quem eu sou?
O poema de Mário de Sá Carneiro, contemporâneo de Fernando Pessoa, descreve muito bem.

“Eu não sou eu nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.”

Alan Nascimento e Adelnise Gonçalves 

5 comentários:

  1. Muito bom Alan e Aldenise o texto de vocês, adorei o exemplo do hipercard ;)Infelizmente a subjetividade humana na hipermodernidade,está muito limitada, o que leva a uma nação alienada,manipulada pela mídia e guiada principalmente pelo consumo.

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  2. Obrigado, Paula. A leitura do seu texto foi uma base fundamental para o desenvolvimento das nossas ideias. Nós também agradecemos muito a você. Escrevendo, debatendo e "psicofilosando" de montão. Esse é o lema.

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  3. Gostei muitíssimo do texto, parabéns. O apanhado histórico bem resumido em contraste com a modernidade descartável, nos proporcina uma viagem no tempo. Isto para quem se dispõe a pensar e não apenas a consumir...

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  4. Muito obrigado pelo comentário. Essa foi a nossa avaliação da disciplina de Etnopsicologia. Eu e Aldenise e toda turma tivemos um enorme prazer em ter aulas maravilhosas com a professora Luísa Majorin.

    Alan Nascimento

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  5. Parabéns, para a equipe,que produziu este texto, me fez voltar a pensar. Ao ver tudo o que está ocorrendo atualmente no Brasil(principalmente), vejo o que a cultura hedonista, está causando,as pessoas alienadas estão destruindo o futuro, pois são inconsequentes e facilmente ludibriadas pela mídia. O que me deixa triste é ver todo descaso com o ser e com o meio ambiente, por causa do consumismos desenfreado. Estou pensando em usar o texto de vocês em uma aluna, para que os meus alunos o interpretem, tem algum problema?
    Abraços e continuem escrevendo, pois precisamos incentivar o pensar.

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